![]() |
![]() |
![]() |
Psicoterapia baseada em evidências em
crianças e adolescentes
Evidence-based psychotherapies for children and adolescents
GABRIEL FERREIRA PHEULA1, LUCIANO RASSIER ISOLAN2 1
Especialista
em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Recebido: 07/09/2006 – Aceito: 18/10/2006 Endereço
para correspondência: |
| Resumo |
Contexto:
O termo tratamentos baseados em evidências refere-se a intervenções
que possuem evidência de eficácia em pesquisas empíricas.
Tratamentos psicológicos baseados em evidências têm
sido identificados como um objetivo principal nos Estados Unidos, e,
atualmente, há uma clara orientação em direção
à sua indicação para os transtornos psiquiátricos
mais prevalentes. Objetivo: Revisar a efetividade de intervenções
psicossociais para as principais formas clínicas dos transtornos
mentais na infância e adolescência, e os desafios para a
pesquisa em tratamentos baseados em evidência. Métodos:
Revisão bibliográfica do banco de dados Medline, de 1985
a 2005, e revisão de artigos encontrados em capítulos
de livros e artigos de revisão. Resultados: Psicoterapias com
suporte empírico em depressão, ansiedade, transtornos
do comportamento disruptivo e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.
Conclusão: Houve um progresso importante na pesquisa em psicoterapia
na infância e adolescência, que se reflete na quantidade
de estudos e na identificação de tratamentos baseados
em evidências. O desafio atual engloba a generalização
de tais achados para a prática clínica. |
| Abstract |
Context:
Interpersonal difficulties, affective instability, distortions of the
clinician-patient relationship, and unpredictable responses to clinical
interventions, are characteristics found in older adults as well as
in younger patients with personality disorders. Pheula, G.F.; Isolan, L.R. / Rev. Psiq. Clín. 34 (2); 74-83, 2007 Keywords: Efficacy, psychotherapy, controlled clinical trials, child and adolescent therapy research, empirically supported therapies. |
| Introdução |
Tratamentos
baseados em evidências referem-se a intervenções
que apresentam evidência empírica de sua eficácia.
Evidência significa que a intervenção foi comparada
a um grupo controle ou outro tratamento ativo, sendo demonstradas resposta
terapêutica e melhora da psicopatologia (Kazdin, 2004). |
| Aspectos históricos da pesquisa em psicoterapia na infância e adolescência |
Os primeiros
relatos de casos de psicoterapia na infância foram descritos por
Freud e Mary Corey Jones. Freud, em 1909, descreveu o tratamento de
um menino de 5 anos, o pequeno Hans, que apresentava fobia de cavalos,
por meio de consultas com o pai do paciente (Freud, 1955). Mary Corey
Jones, em 1924, usou as técnicas de modelagem e condicionamento
no tratamento de um menino de 2 anos com fobia de coelhos brancos (Jones,
1924). |
| Critérios para definição de psicoterapias baseadas em evidências |
Lonigan
et al. (1998), revisando estudos de seguimento de pacientes submetidos
à psicoterapia, constataram que crianças que receberam
a intervenção estudada apresentaram, em média,
80% de melhora dos sintomas na avaliação de seguimento,
taxa significativamente superior à encontrada em crianças
sem nenhum tratamento. Assim, começaram a ser estudadas quais
técnicas seriam mais eficazes para um transtorno psiquiátrico
específico. |
| Aspectos metodológicos da pesquisa em psicoterapia |
A questão dos mediadores nos ensaios clínicos Atualmente,
há pouca dúvida quanto à eficácia da psicoterapia
em transtornos emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes.
Um foco de pesquisa recente é a identificação
de mecanismos de mudança em psicoterapia, isto é, “como
a psicoterapia funciona?” (Weersing e Weisz, 2002). A falta
de estudos na área de fatores mediadores do tratamento é
responsável pelo grande número de críticas sobre
a real validade externa das psicoterapias baseadas em evidência.
Ainda não está claro se os efeitos estatisticamente
significativos encontrados em estudos podem ser transportados para
a prática clínica (Kendall e Grove, 1988). Em tratamentos
multimodais, cujos manuais incluem várias intervenções
teóricas, aplicadas em momentos diferentes, não se sabe
se todas as intervenções causam melhora clínica
(Weersing e Weisz, 2002). A predominância da pesquisa em terapia cognitivo-comportamental Cerca
de 50% dos estudos de psicoterapia em crianças e adolescentes
investigaram técnicas cognitivo-comportamentais (Durlak et
al., 1995). A justificativa é a atual popularidade dessa teoria,
associada ao fato de propiciar maior facilidade com aspectos de metodologia
de pesquisa, como uso de questionários estruturados, tratamentos
manualizados e medidas objetivas de avaliação. Implicações para o treinamento em psicoterapia Alguns
autores, recentemente, têm avaliado as implicações
da pesquisa em psicoterapia no treinamento de especialistas. Em 2000,
a Academia Americana de Psicologia determinou que os programas de
treinamento em psicoterapia deveriam dar ênfase aos aspectos
metodológicos de pesquisa e ao uso de técnicas baseadas
em evidências (American Psychological Association, 2000). Tais
aspectos passaram a fazer parte do cadastramento e da acreditabilidade
de programas de treinamento. Ao mesmo tempo, foi verificada a tendência
de separação entre serviços de pesquisa e de
treinamento, pois menos de 25% destes não faziam nenhuma menção
às terapias baseadas em evidências (Herschell et al.,
2004). Outros desafios para a pesquisa de psicoterapias baseadas em evidências No momento,
existem vários desafios relacionados à identificação,
ao desenvolvimento e à disseminação de tratamentos
psicoterápicos baseados em evidências em crianças
e adolescentes, como a manualização de tratamentos e
a efetividade das técnicas psicoterápicas (Ollendick,
1999). |
| Discussão sobre os tratamentos baseados em evidências em crianças e adolescentes |
Transtornos de ansiedade e fobias Em
relação a fobias específicas, tratamentos considerados
bem estabelecidos são a modelagem participante e as técnicas
de reforço (Hibbs, 2001; Kazdin, 2003). Na modelagem é
feita uma exposição ao estímulo ansiogênico,
com a suposição de que a ansiedade diminua por meio
do aprendizado pela observação. O paciente observa,
de forma repetida, a interação de outras pessoas com
o estímulo fóbico, verificando a ausência de
conseqüências danosas (Bandura et al., 1969). Na modelagem
participante, há participação ativa do paciente
nas atividades. Blanchard (1970) verificou que a modelagem participante
foi superior à modelagem simples e à modelagem com
informação. O fator mediador de melhora foi a diminuição
do estado de alerta. A modelagem participante foi considerada mais
efetiva do que as demais técnicas, bem como mais eficaz que
a dessensibilização sistemática, a qual preconiza
a melhora da fobia por condicionamento clássico (Wolpe, 1954).
A modelagem ao vivo e a modelagem por meio de filmes foram superiores
a controles sem tratamento, sendo consideradas tratamento com provável
eficácia. Transtorno depressivo O
tratamento considerado de provável eficácia em crianças
e adolescentes é a terapia cognitivo-comportamental em grupo
(Kaslow e Thompson, 1998). Em crianças, Stark et al. (1987)
aplicaram uma técnica psicoterápica de autocontrole,
com habilidades de automanejo e auto-reforço, e compararam-na
com treino comportamental em solução de problemas.
Verificaram que a terapia com autocontrole apresentou melhora superior
em relação ao autoconceito, embora ambos os tratamentos
tenham apresentado igual melhora na sintomatologia. Os resultados
foram mantidos 7 meses após (Stark et al., 2000). Brent
et al. (1997) compararam a terapia cognitivo-comportamental com
a terapia familiar sistêmica comportamental em adolescentes
com depressão. Pacientes que receberam intervenção
cognitivo-comportamental apresentaram melhora superior e mais rápida
dos sintomas de depressão, mas a taxa de recaída foi
igual em 2 anos, em comparação aos tratamentos ativos
com um grupo que recebeu terapia de suporte (Clarke et al., 1999).
Kolko et al. (2000), avaliando os mediadores de melhora, verificaram
que, a despeito da melhora clínica, a terapia cognitivo-comportamental
não causou melhora das distorções cognitivas,
nem a terapia familiar teve maior efeito em medidas de funcionamento
familiar. Logo, a melhora clínica não se deveu à
melhora nos mecanismos de ação propostos pela teoria
cognitiva. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade De
acordo com a American Psychological Association, o treinamento de
manejo comportamental pelos pais, com intervenções
comportamentais em sala de aula, são considerados de eficácia
bem estabelecida (Pelham et al., 1998). O treinamento de pais, desenvolvido
principalmente por Barkley (1997), baseia-se no princípio
do condicionamento operante, o qual preconiza que, com técnicas
de reforço adequadas, há aumento na freqüência
de comportamentos adequados. A técnica demonstrou eficácia
quando comparada a placebo psicológico (Carlson et al., 1992)
e lista de espera (Chorpita et al., 2002). No entanto, os estudos
apresentaram algumas limitações. Foram realizados
apenas com meninos, sem diferenciação do subtipo do
transtorno (desatento, hiperativo/impulsivo ou combinado) e os sintomas
retornaram tão logo o tratamento foi descontinuado (Wolraich
et al., 1978). Também se demonstrou a eficácia de
um programa que adicionou manejo de orientação a professores
e aspectos da teoria de aprendizagem social (Weisz e Jung, 2004). Transtornos de oposição e conduta O
transtorno desafiador de oposição e o transtorno de
conduta apresentam o maior número de pesquisas experimentais
realizadas, em comparação com qualquer outro transtorno
mental da infância e adolescência (Chambless e Ollendick,
2001). O programa de treinamento parental elaborado por Patterson
e Guillion (1968) apresentou um foco específico em sintomas
de oposição e agressividade, tendo sido eficaz quando
utilizado em pacientes com menos de 13 anos, e comparado a lista
de espera, terapia de suporte e terapia familiar psicodinâmica
(Alexander e Parsons, 1973; Bernal et al., 1980). Transtorno autista O
tratamento psicossocial para autismo começou a ser estudado
por Lovaas (1987). O autor desenvolveu um manual, que consiste em
técnicas de modificação comportamental para
comportamentos inapropriados, associado a ensinamento de habilidades
cognitivas, de linguagem e autocuidado, sendo aplicado por 2 anos.
Comparados com o grupo controle, os pacientes apresentaram melhora
superior em escores de QI e habilidades acadêmicas mantidas
a longo prazo (McEachin et al., 1993). No entanto, o estudo apresentou
limitações metodológicas importantes, como
falta de randomização. |
| Conclusão |
O objetivo principal do desenvolvimento das técnicas baseadas em evidências é o uso consciente, distinto e criterioso das melhores evidências em decisões sobre o cuidado individual do paciente. Dentro desse paradigma, busca a integração entre a habilidade clínica individual e a melhor evidência científica disponível a partir de pesquisas sistemáticas. O movimento da psicoterapia baseada em evidências objetiva, acima de tudo, o esforço em identificar, testar, desenvolver e estimular a disseminação de técnicas validadas em pesquisas científicas. |
| Referências |
Abikoff,
H.; Ganeles, D.; Reiter, G.; Blum, C; Foley, C; Klein, R.G. - Cognitive
training in academically deficient ADDH boys receiving stimulant medication.
J Abnorm Child Psychol 16:411-432, 1988. |
| |
Órgão Oficial do Departamento
e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade
de São Paulo