No Brasil, desde a virada do século XIX para o século XX, vários autores têm estudado a religiosidade nas suas relações com o sofrimento individual e os transtornos mentais. Não há espaço seguramente para uma revisão completa da produção sobre o tema realizada por autores brasileiros. Apenas serão mencionados alguns trabalhos e autores a fim de assinalar algumas das linhas de investigação mais significativas. Os trabalhos produzidos por psiquiatras brasileiros sobre estados de transe e possessão não foram incluídos neste trabalho, pois são tema de outro artigo (“O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão”) nesta mesma edição da Revista de Psiquiatria Clínica (Almeida et al., 2007).
Foi possivelmente Raimundo Nina Rodrigues1 o primeiro a estudar a religiosidade de negros e pardos, assim como as epidemias de “loucura coletiva” (ele falava em “epidemia vesânica de caráter religioso”) em nosso país. O valor de seu trabalho2 foi, sobretudo, etnográfico, pois descreveu minuciosamente os cultos, práticas e entidades sagradas de africanos e seus descendentes. Da mesma forma, descreveu tais “epidemias” de “loucura coletiva” no Maranhão e na Bahia, analisando em profundidade o fenômeno do messianismo (em particular, de Antonio Conselheiro, em Canudos). Além do trabalho descritivo cuidadoso empreendido pelo médico e antropólogo maranhense, verifica-se uma interpretação marcada por evolucionismo e racialismo (negros e suas culturas colocados em estágio mais primitivo de desenvolvimento que brancos), superados apenas nas décadas posteriores à sua obra.
Seus estudos das epidemias psíquicas, o beribéri de tremeliques ou caruara, em São Luís (MA) e Salvador (BA)(Nina Rodrigues, 2003), assim como a loucura epidêmica de Canudos (Nina Rodrigues, 2000), expressam a sua percepção aguda de como crenças poderosas podem atuar sobre um terreno fértil de populações vulneráveis ao contágio imitativo. Para ele, a religiosidade das classes populares no Brasil revelava um caráter híbrido, no qual uma casca de catolicismo monoteísta europeu encobria crenças mais bem fetichistas, politeístas e animistas. Tal perfil, em contexto sociopolítico de mudanças rápidas, aumentaria as tensões sociais e facilitaria a propagação das epidemias de loucura coletiva. Um indivíduo acometido por doença mental grave, como era o caso de Antonio Conselheiro (acometido por delírio crônico de Magnan, segundo Nina Rodrigues), atuando em uma massa de pobres, mestiços, sugestionáveis e desequilibrados, em momento histórico conturbado, poderia desencadear previsivelmente fenômenos histéricos, neurastênicos e místicos de grandes proporções3.
Apesar das indiscutíveis ressalvas ao viés racista e psiquiátrico de sua obra, deve-se reconhecer que Nina Rodrigues descreveu laboriosamente a riqueza cultural das manifestações dos cultos fetichistas, assim como a importância dessas manifestações para a expressão de conflitos e necessidades.
O primeiro psiquiatra paulista, Franco da Rocha (1919), apresentou o tema “Do delírio em geral”, no Curso de Clínica Psiquiátrica na Faculdade de Medicina de São Paulo. Ele terminou essa aula salientando a grande importância do delírio das multidões, que seria produzido por indução e comunicação afetiva nas massas populares. Certamente ainda impressionado pela tragédia de Canudos, Franco da Rocha relatou um episódio de loucura coletiva religiosa na pequena São Luiz do Paraitinga (SP): “Um rudimento de loucura coletiva deu-se, há bem pouco tempo, em S. Luiz do Paraitinga, onde a epidemia religiosa foi jugulada no nascedouro pelo bom senso do governo. Foram elementos iniciais uma histérica com crises catalépticas e uma boa dose de embusteirice ao redor desse fenômeno; o resto coube ao misticismo (à sede de milagres) existente sempre em certas camadas da sociedade. Não tomasse o governo tão importantes medidas e a epidemia seguiria seu curso, como tantas outras já registradas entre nós, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Taubaté (SP) etc.
Em uma perspectiva inicialmente mais psicopatológica (e mais etnológica, anos depois), Osório Cesar interessou-se profundamente tanto pela arte produzida pelos alienados dos hospícios como pelas manifestações religiosas e culturais dessa população. Em 1924, no primeiro artigo sobre arte produzida por alienados no Brasil, ele relata detalhadamente o caso de um doente negro, de 32 anos, soldado da polícia, católico, que havia sido internado, pois movido por intensa atividade delirante, assassinou sua mulher a machadadas. Esse homem que se comunicava com os “poderes espirituais do espaço” demonstrava um prazer especial e uma habilidade incrível em produzir esculturas originais e muito expressivas; “suas produções escuptóricas giram todas em um idêntico princípio: o feiticismo, e em algumas dellas deixam reproduzir o sentimento atávico evocando a alma dos antepassados de sua raça” (César, 1924).
Anos mais tarde, César (1939) publicou um livro
inteiramente dedicado a aspectos religiosos relacionados à doença mental, intitulado Misticismo e Loucura. Nesse trabalho, o psiquiatra paulista faz, nos primeiros capítulos, uma análise etnopsicológica do caráter religioso dos brasileiros, sobretudo de negros e mestiços.
Nesses capítulos, Cesar se apóia em teses que começavam a se tornar anacrônicas na época, de evolucionismo cultural e primitividade de grupos raciais. Os dois últimos capítulos são de maior interesse. No penúltimo, “Fanatismo e Psicopatia”, ele relatou uma série de “loucuras religiosas epidêmicas” ocorridas no Brasil. Analisou o episódio de Pedra-Bonita, em Pernambuco, em que morreram algumas dezenas, movidos pelo delirante João Santos, que acreditava haver descoberto nas redondezas do município de Flores uma área sagrada, prenhe de riquezas e maravilhas celestes, onde ainda reinaria o legendário rei português Dom Sebastião. No episódio, várias pessoas se suicidaram e ocorreram muitos sacrifícios humanos, na busca e ânsia por aquele éden agreste. Relatou também a então considerada loucura epidêmica de Canudos, liderada pelo místico (considerado também delirante) Antônio Conselheiro. Também como expressão de uma devoção extrema e com contornos delirantes, citou o grande líder religioso nordestino Padre Cícero do Crato (e de sua Juazeiro) como exemplo de santo popular, autor de muitos milagres (e, assim, substrato de delírios religiosos coletivos).
O capítulo mais original de César4 é o último sobre “Os místicos dos hospícios”. Aqui ele descreveu como as diferentes patologias mentais produzem delírios e alucinações de conformação religiosa. Afirmou que é a parafrenia (uma psicose esquizofreniforme com preservação da organização mental) a que mais produz delírios místicos. Relatou casos de pacientes com demência precoce (atual esquizofrenia) com idéias de natureza místico-erótica e comentou como o delírio místico nos melancólicos, geralmente envolto em idéias de auto-acusação, é das formas mais graves de delírio religioso. No final, ele descreveu dois casos de auto-amputação do pênis perpetrados por jovens com delírios místicos e exagerados sentimentos religiosos. Um deles, jovem presbiteriano, teve alucinações e delírios acreditando ser o apóstolo Pedro. Após um período em que se tornou triste e sombrio, decidiu cortar o pênis com uma faca, pois se masturbava com freqüência e decidiu seguir as indicações de Jesus. Citou para justificar seu ato automutilatório: “Se tua mão direita te escandaliza, corta-a e lança-a fora...”. O outro jovem delirante também era um assíduo masturbador, tendo tido uma estrita educação católica. Considerava a masturbação e a fornicação pecados máximos; movido por suas análises delirantes, para se liberar de seus desejos eróticos, decidiu também pela amputação do próprio pênis.
Em dois trabalhos posteriores, Cesar (1949, 1951)5 revisitou o tema da arte dos alienados. No primeiro, analisou em detalhes a arte mística de um imigrante português, internado no Juqueri desde 1898. Analisou como o simbolismo étnico desse artista revelava um erotismo disfarçado em mística. No segundo trabalho, investigou também em profundidade a composição temática dos desenhos de dois pacientes esquizofrênicos e analisou a mescla de simbolismos cristão e sexual presentes nessas obras. As relações entre simbolismo cultural e religioso e simbolismo individual, sexual, são analisadas em um trabalho genial escrito em parceria com Roger Bastide. Em “Pintura, loucura e cultura”, Bastide e Cesar (1956)6 analisaram as obras pictóricas de três imigrantes (um alemão, um espanhol e um português) alienados. Propuseram uma peculiar forma de ligação entre os diversos simbolismos individuais e culturais, pois: “A cultura não é externa ao indivíduo; ela existe pela educação interiorizada e, conseqüentemente, assume colorido variável, de acordo com os indivíduos. A arte, sendo a expressão da personalidade, seja essa personalidade normal ou patológica, a pintura não nos colocará jamais senão em presença da cultura introvertida e mais ou menos deformada pelos problemas do homem que pinta”.
Há, portanto, uma estreita relação entre os “estilos patológicos” e os “estilos culturais”. Para eles, existe quase sempre uma fusão original, variável de indivíduo para indivíduo, entre o símbolo libidinoso e o símbolo cultural, freqüentemente religioso. No imigrante, em particular, há processos de recalcamento e de recuperação dos símbolos da cultura de origem e da cultura atual que devem ser decodificados, posto que (...) o símbolo-sinal é um meio de restabelecer a comunicação tornada impossível ou difícil sobre a nova terra, com os homens da pátria dos antepassados.
Finalmente, em um trabalho de análise histórica, Demonologia (1957), César discutiu a importância da possessão demoníaca na cultura européia e como tais possessões passaram a fazer parte da expressão da doença mental no Ocidente. Utilizando autores como Charcot, Richer, Janet e Zilboorg, traçou pontos de contato entre a chamada demonopatia e a grande histeria descrita pelos autores franceses.
No início dos anos de 1940, Lucena (1940) estudou um movimento messiânico no município de Panelas, em Pernambuco. Descreveu como um líder com vagas idéias paranóides e de influência atuou sobre um grupo de pessoas crédulas. Lucena examinou essas pessoas e concluiu não se tratar de “epidemia de doença mental”, mas de fenômeno cultural, pois os adeptos não passavam dos vários matizes da credulidade; eles não eram portadores de transtornos mentais, apenas expressavam a exacerbação de uma mentalidade coletiva. Esse trabalho do professor pernambucano foi importante no sentido de iniciar um processo de “despatologização” do fenômeno do messianismo no meio psiquiátrico brasileiro. Cabe citar que em 1969, Lucena7 publicou uma preciosa revisão completa e crítica de estudos sobre aspectos culturais (incluindo a religiosidade) relacionados aos transtornos mentais no Brasil.
Em 1942, Whitaker analisou detalhadamente o fenômeno da mediunidade lançando mão tanto de visitas a ritos religiosos espíritas como do estudo de uma jovem paciente com marcantes qualidades mediúnicas. O autor notou que quando a jovem freqüentava as sessões espíritas, suas crises de choro, nervosismo e descontrole cessavam; sem as sessões, sentia-se nervosa e percebia que necessitava “receber os espíritos”. Ele analisou os médiuns como um grupo heterogêneo; alguns neuróticos cujas manifestações inconscientes são interpretadas como “espíritos” e outros perfeitamente normais, crentes sinceros e de boa-fé, movidos por forte influência sugestiva.
Na mesma linha dos estudos de Lucena sobre psiquiatria e messianismo, poucos anos depois, em Campo Grande (MS), Pires (1946) observou outro movimento de loucura religiosa, liderado por uma dupla; um pai delirante e seu filho, tido como “santo milagroso”. Ele disse que o pai era fervoroso crente, às vezes alucinado e portador de idéias místicas supervalentes que, freqüentemente, atingiam a condição delirante: era o indutor do episódio que se ia passar. Pires interessou-se em particular pelo fenômeno das chamadas psicoses induzidas e pelo “contágio psíquico” nas populações. O jovem líder do movimento messiânico que estudou era um adolescente anemiado profundamente, de inteligência aparentemente subnormal, que atuava com o pai; recusou-se à entrevista, pois era um santo que não queria ser perturbado. Tinha ânsia por curar e dizia que enlouqueceria se não o fizesse. Segundo Pires, em virtude das condições socioculturais da população, que no interior do Brasil em si não é delirante, mas tem marcante necessidade de crença, acabou-se por atribuir a esse garoto a qualidade de santo curador de todo tipo de doença. Acorreu à pequena cidade, que então contava com 30 mil habitantes, uma multidão de doentes, paralíticos, asmáticos, ulcerosos, que se diziam curados pelo menino santo. Ao que parece, a mortalidade na cidade aumentou nesse período. Ao final, o juiz local proibiu as curas e determinou com a polícia o fim do episódio.
Poucos anos depois, em Belisário, Minas Gerais, Alvim (1951) descreveu um movimento messiânico associado a uma seita liderada por uma mulher, possivelmente com “personalidade psicopática” e um fiel seu com retardo mental e reações paranóides e homicidas. O autor não constatou, por outro lado, nenhuma doença mental nos adeptos.
No final dos anos de 1950, um primeiro estudo multidisciplinar realizado pela socióloga Maria Izaura Pereira de Queiroz (1957), em Caculé (BA), analisou os participantes de um movimento messiânico, não constatando doença mental. Entretanto, do ponto de vista da psicologia social, verificou indícios de insegurança, passividade, imaturidade e deficiência de iniciativa nos adeptos de tal movimento. Essa autora tornou-se uma das principais referências do fenômeno do messianismo (Pereira, 1965) e consolidou nos anos de 1960 e 1970 uma nova visão, que enfatizava tanto aspectos sociais como políticos, em contraposição a perspectivas patológicas dominantes no meio intelectual anterior a ela.
Também no início dos anos de 1960, surgiu um trabalho de Lyra (1964) que analisou as relações entre misticismo e psiquiatria. Esse autor criticou frontalmente uma leitura psiquiátrica que interpretou o misticismo como fenômeno mórbido ou como remanescente de superstições antigas ou atávicas. Ele reconheceu no misticismo sua especificidade, pois ele não é mera exaltação do sentimento religioso (...) é fenômeno extremamente complexo. O psiquiatra, de fato, raramente tem contato com o verdadeiro místico, que, ao contrário do delirante ou do alucinado, geralmente tem vida social e mental integrada e equilibrada. Assim como Rubim de Pinho, Lyra criticou a arrogância dos psiquiatras em atribuir caráter mórbido a um fenômeno complexo que eles mal conheciam. Ele disse: “No místico, não se deve procurar apenas o lado patológico, mas tomar em consideração a personalidade total. A situação existencial não pode ficar presa dentro da ficção nosológica. Se há místicos com fenômenos histéricos e histéricos com fenômenos místicos, há, por outro lado, indivíduos superiores, ajustados mental e socialmente, os quais apresentam fenômenos místicos e que muito dificilmente podem ser enquadrados entre os parafrênicos, histéricos ou epilépticos. Esses indivíduos nunca são encontrados nos consultórios médicos e o psiquiatra raramente tem ocasião de conhecê-los”.
O sociólogo francês radicado no Brasil Bastide (1967), em seu livro Sociologia das Doenças Mentais, analisou a relação entre pertencer a distintas denominações religiosas e o adoecimento mental. Após revisar detalhadamente a literatura da época, concluiu que os valores e normas que constituem a cultura religiosa de um grupo étnico atuam e dão a sua contribuição à ocorrência das doenças mentais. Há, entretanto, salienta ele, uma variação dessas normas culturais segundo as classes sociais.
Bastide (1967) deu particular atenção à influência das seitas religiosas sobre os transtornos mentais. Para ele, há seitas que desempenham papel positivo de proteção em relação aos transtornos mentais, outras, entretanto, intensificam (...) os conflitos psíquicos entre o desejo de perfeição absoluta e os instintos, mais particularmente o instinto sexual. Aqui, possivelmente Bastide se referiu a pequenas igrejas evangélicas, pentecostais, com seu pietismo e moralismo estrito. Ao analisar outro grupo de pequenas seitas, que ele denominou “seitas urbanas e esotéricas” (possivelmente grupos de espiritismo híbrido, com componentes afro-brasileiros e kardecistas), ele disse que tais seitas chamam para seu seio: “(...) todos os ansiosos e deprimidos, os grandes vencidos da sociedade industrial; elas (tais seitas) constituem verdadeiros caldos de cultura dos transtornos psiquiátricos, os quais elas exaltam, enquanto as Igrejas os controlavam e reprimiam” (1967).
De toda forma, interessante em Bastide é a forma como ele salientou a variabilidade dos tipos de vida religiosa e a multiplicidade de efeitos sobre a saúde e os transtornos mentais. Para ele, havia tipos de vidas e experiências religiosas que nos aproximam dos distúrbios mentais enquanto outros nos afastam dele; (...) há uma vida religiosa que é regressiva e patológica, existe outra que é progressiva e formadora de personalidades sadias.
A conclusão final que Bastide extraiu de seus estudos é a de que há certa autonomia da patologia mental em relação à religião. Para ele, a doença mental precedia à religião, podendo influir sobre ela e ser por ela influenciada. Ele afirmou: “(...) mas quem não vê então que é a doença ou a sanidade que é anterior à religião? As neuroses podem transformar a religião em uma construção patológica e as psicoses podem alimentar-lhe os delírios. Mas não é a religião que cria umas ou outras. Segundo ele, a psicopatologia, os desequilíbrios familiares e, sobretudo, a “desumanidade das relações industriais” são os fatores que podem contribuir para uma certa degeneração da vida religiosa em neurose. Por outro lado, Bastide defendeu que o espírito comunitário, a disciplina das Igrejas e o controle da vida afetiva do homem podem prover, via religião, uma vida mais sadia às populações.
Moreira-Almeida et al. (2005) reviram recentemente a história da chamada “loucura espírita” na primeira metade do século XX, no Brasil. Nesse contexto, médicos eminentes, como Henrique Roxo, Franco da Rocha e Afrânio Peixoto, consideravam que as práticas espíritas desencadeavam com freqüência quadros de loucura e histeria. Até o início dos anos de 1950, essa tese foi sustentada (em particular por Pacheco e Silva, líder universitário da psiquiatria paulista). Nas décadas seguintes, por influência tanto de sociólogos, como Roger Bastide, e psiquiatras, como Osório César, Anibal Silveira, Alberto Lyra e Rubim de Pinho, essa visão foi sendo paulatinamente substituída por uma percepção menos preconceituosa. Bastide (1978), após estudar em profundidade os cultos afro-brasileiros e as experiências mediúnicas que neles ocorrem concluiu que os estados de transe e possessão são mais bem compreendidos via entendimento antropológico de seus símbolos e ritos do que por aproximação psicopatológica. Embora ele mantenha que eventualmente certas práticas espíritas (das mencionadas “seitas urbanas e esotéricas”) possam ser deletérias, tem-se constatando que o espiritismo, de modo geral, não causa transtornos mentais; quando se associa a eles é antes via a busca que pessoas acometidas por sofrimento mental empreendem nos centros espíritas kardecistas, terreiros de candomblé e centros de umbanda.
1 Ver os trabalhos de Nina Rodrigues concernentes à religião e suas relações com a psicopatologia: Nina Rodrigues, R. Animismo Fetichista dos Negros Bahianos. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, 1896; Epidemie de folie religieuse au Brésil, Annales Médico-Psychologiques, Paris, 1898; Nina Rodrigues, R. Sobrevivências Religiosas: Religião, Mitologia e Culto. In: Os Africanos no Brasil. Editora Universidade de Brasília/Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1982/1933.
2 Para revisão e análise da obra etnopsiquiátrica de Nina Rodrigues, ver a excelente tese: Oda, A.M.G.R. Alienação Mental e Raça: a Psicopatologia Comparada dos Negros e Mestiços Brasileiros na Obra de Raimundo Nina Rodrigues. Tese de doutorado. Unicamp, Campinas, 2003.
3 Uma leitura sociocultural e política do messianismo só se tornaria bem assentada em nosso país com o trabalho de Maria Izaura Pereira de Queiroz, apresentado em seu livro: O Messianismo no Brasil e no Mundo. Dominus, São Paulo, 1965.
4 Sobre a marcante originalidade de toda a obra de César, em particular os seus estudos sobre a produção artística dos sujeitos com transtornos mentais, assim como a organização de oficinas de arte, a pedagogia artística livre e o engajamento na reabilitação social, ver: Toledo Ferraz, M.H.C. Arte e Loucura: Limites do Imprevisível. Lemos, São Paulo, 1998.
5 César, O. Simbolismo místico nos alienados. Revista do Arquivo do Município de São Paulo 124:47-72, 1949. César, O. Contribuition à l’etude de l’arte chez lês alienes. Arquivos do Departamento de Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo 16:51-64, 1951.
6 Bastide, R.; César, O. Pintura, loucura e cultura. Arquivos do Departamento de Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo 22:51-70, 1956.
7 Lucena, J. Aspectos culturais na patologia mental em certos grupos brasileiros. Revista Brasileira de Psiquiatria 3(1):7-30, 1969.
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