Revisão de Literatura

Ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais

Child adjustment to separation or divorce of parents

Hélder Silva Raposo1, Barbara Fernandes de Carvalho Figueiredo2, Diogo Jorge Pereira do Vale Lamela3,
Rui Alexandre Nunes-Costa1, Maria Conceição Castro1, Joana Prego1

1 Mestrando em Psicologia Clínica da Universidade do Minho (UM), Portugal.
2 Doutora pela UM, professora-associada do Departamento de Psicologia da UM, coordenadora da Unidade dos Estudos do Divórcio e Intervenção da UM.
3 Doutorando no Programa Doutoral em Psicologia Clínica da UM, professor-assistente na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo, Portugal.

Recebido: 26/11/2009 – Aceito: 27/1/2010

Endereço para correspondência: Hélder Silva Raposo. Departamento de Psicologia, Universidade do Minho, Campus de Gualtar – 4710-057 – Braga, Portugal. E-mail: helderraposo17@hotmail.com

Resumo

Objetivo: O presente artigo procura relacionar e analisar evidências empíricas e teóricas sobre o impacto e os fatores associados ao impacto da separação ou divórcio dos pais no ajustamento da criança. Método: Realizou-se uma revisão agregativa da literatura, recorrendo às palavras-chave “divorce adjustment”, “child divorce” e “divorce impact”, nas bases de dados JSTOR, PsycInfo, SciELO e Medline e em livros da especialidade. Resultados: Respostas adaptativas e desadaptativas da criança são descritas, assim como potenciais resultados positivos. São principalmente discutidos os fatores mediadores e moderadores frequentemente referenciados na literatura no impacto da separação ou divórcio dos pais no ajustamento da criança. Entre esses estão: características da criança, problemas financeiros, sintomatologia psicopatológica dos pais, qualidade das práticas parentais e conflito interparental. Conclusão: Com base nas evidências empíricas e perspectivando o divórcio como uma transição desenvolvimental, levantamos a hipótese de que os problemas de ajustamento apresentados pelas crianças com pais divorciados possam ser mais bem explicados por outros fatores do que pelo divórcio/separação per se. Finalmente assumimos uma inovação conceptual de que essa transição familiar pode significar uma oportunidade de crescimento e de promoção desenvolvimental.

Raposo HS, et al. / Rev Psiq Clín. 2011;38(1):29-33

Palavras-chave: Ajustamento, criança, divórcio, coparentalidade, conflito interparental.

Abstract

Objective: Current theoretical and empirical evidences about the impact and the factors associated with the impact of parents’ separation/divorce in children’s adjustment were related and examined. Method: An aggregative literature review was made, using the keywords “divorce adjustment”, “child divorce” e “divorce impact”, from the databases JSTOR, PsycInfo, SciELO, and Medline and from reference books. Results: Child unadaptive and adaptive responses are described, as well as potential positive results. Mediators and moderators factors of the impact of parents’ separation/divorce in children’s adjustment often referenced in literature are mainly discussed. Among these are: characteristics of children, financial problems, parents’ psychopathological symptoms, quality of parenting practices and inter-parental conflict. Discussion: Based on the existing results, and considering the divorce as a developmental transition, we put a hypothesis that adjustment problems showed by children’s of divorce can be better explained by other factors than the divorce/separation by itself. Finally we assume a conceptual innovation that this familiar transition can represent a growth opportunity and developmental promotion.

Raposo HS, et al. / Rev Psiq Clín. 2011;38(1):29-33

Key-words
: Adjustment, children, divorce, co-parenting, inter-parental conflict.

Introdução

O divórcio tem sido descrito como um evento estressante para as famílias, nomeadamente porque implica uma série de mudanças e ajustamentos na vida dos pais e das crianças1-4. Como outras situações familiares estressantes, o divórcio aumenta a probabilidade de pais e crianças evidenciarem mal-estar psicológico1,2,5-7. Reações adversas em vários níveis, assim como sintomas que são comuns nessa fase de transição, têm sido descritas nos mais variados estudos6-11.

A literatura aponta que crianças de famílias divorciadas estão em risco de apresentar problemas de ajustamento6,12,13. A metanálise de Amato e Keith5 mostra que crianças de pais divorciados, quando comparadas com crianças que vivem em famílias intactas, exibem indicadores de menor bem-estar, incluindo pior realização acadêmica, ajustamento psicológico, autoconceito, relações sociais e qualidade de relacionamento com o pai e a mãe. Posteriormente, o autor realizou novas análises englobando os resultados dos estudos publicados nos anos 19906 e comparando-os com os resultados da metanálise anterior, mostrando que os filhos de pais divorciados, em comparação com os filhos de pais casados, continuam a exibir piores resultados: no ajustamento psicológico, na realização acadêmica, quanto ao nível comportamental, do autoconceito e relações sociais. O autor refere ainda que as diferenças entre os dois grupos foram mais acentuadas nos anos 1990, em comparação aos anos 19806. Mais recentemente, Amato14 sinaliza, ainda, que as crianças que crescem com pais casados têm menos probabilidade de experienciar uma grande variedade de problemas cognitivos, emocionais e sociais, não somente durante a infância, mas também na idade adulta. Questionando-se sobre a origem dessas diferenças, o autor sugere que as crianças que crescem em famílias estáveis, com ambos os pais, apresentam níveis mais elevados de qualidade de vida, beneficiam-se de maiores níveis de efetividade parental, coparentalidade, proximidade emocional com ambos os pais e estão sujeitas a menos acontecimentos e situações estressantes.

A presente revisão da literatura procurou enunciar e agregar dados relativos aos fatores mediadores/moderadores frequentemente reportados na literatura, associando-os ao impacto que o divórcio ou separação dos pais pode ter no ajustamento da criança ao divórcio, nomeadamente no desenvolvimento de respostas adaptativas e desadaptativas.

Método


Na presente revisão agregativa da literatura, recorreu-se às bases de dados JSTOR, PsycInfo, SciELO e Medline, utilizando os unitermos “divorce adjustment”, “child divorce” e “divorce impact”. Foram selecionados os artigos mais representativos sobre o tema e dada especial atenção aos contributos de investigadores de referência internacional. Também foram consultados alguns livros de referência que se justificassem no enquadramento do presente artigo de revisão.

Resultados e discussão

Mediadores/moderadores dos problemas de ajustamento da criança


No modelo biopsicossocial do impacto da dissolução conjugal proposto por Troxel e Matthews15, em 2004, a separação é um estressor familiar que tem, por um lado, um efeito desorganizador das práticas parentais e origina, por outro lado, a redução da segurança econômica da família. Essas dimensões, associadas a fatores de vulnerabilidade biológica, familiar, interpessoal e social, contribuem para a desregulação e insegurança emocionais da criança. Reações comuns podem traduzir-se em problemas de saúde física e psicológica na presença dessas vulnerabilidades. Segundo Nunes-Costa et al.16, a separação ou divórcio dos pais pode desencadear a diminuição da saúde física17 e psicológica, mas não significa por si só a desadaptação desenvolvimental da criança. Só quando se associa a outros fatores de risco, como o conflito interparental, desencadeia trajetórias desenvolvimentais caracterizadas por uma inadequada adaptação, com piores níveis de saúde física, sintomatologia psicopatológica, pior rendimento acadêmico e comportamentos de risco. Também Lansford10 alerta de que nem todas as crianças vivenciam trajetórias de desadaptação, sendo a resposta determinada por circunstâncias individuais. A título de exemplo, Kelly e Emery18 referem como fatores protetores no ajustamento da criança ao divórcio: a competência e a adequação dos pais na disputa pela custódia e a qualidade das práticas parentais, a parentalidade apropriada do pai sem a custódia e a diminuição dos conflitos parentais durante o divórcio. Estes últimos, quando presentes, podem amenizar e amortecer o impacto do divórcio ou separação, e com maior probabilidade existe uma adequada adaptação desenvolvimental da criança.

A questão de se o divórcio ou separação parental per se e as condições que com frequência lhe estão associadas determinam os piores resultados das crianças, evidenciados na literatura, é por conseguinte relevante. A ideia de que o divórcio e a separação dos pais per se determinam quase “invariavelmente” piores resultados psicológicos na criança é cada vez menos enfatizada na literatura.
O interesse atual dos investigadores dirige-se para a procura dos fatores, modelos e processos que melhor permitam explicar o modo como o divórcio pode afetar o ajustamento da criança, em vez da comparação do ajustamento entre crianças de famílias divorciadas e intactas. A investigação procura, assim, conciliar duas posições extremistas: 1) de que o divórcio é debilitante e provoca efeitos negativos e duradouros no ajustamento a longo prazo da criança (Wallerstein et al.19); e 2) de que não existem efeitos negativos a longo prazo no ajustamento da criança (Harris20). Tendencialmente, chega-se à conclusão de que o divórcio pode acarretar efeitos negativos no ajustamento da criança, na maior parte das vezes transitórios, cujas magnitude e extensão no tempo dependem de outras circunstâncias, tal como se discute a seguir.

Por exemplo, Amato e Keith5, tomando em consideração os processos familiares e outras variáveis mediadoras, realçam a presença de cinco fatores associados ao pior ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais: 1) dificuldades da criança (como o temperamento e a idade); 2) diminuição da segurança financeira no período que segue a dissolução conjugal; 3) quadros psicopatológicos nos pais, com especial relevância para a depressão; 4) coparentalidade conflituosa; e 5) intensidade, tonalidade e frequência do conflito interparental antes e após a separação.

Características da criança


Temperamento e nível de desenvolvimento são dimensões intrínsecas à criança, essenciais na compreensão do processo de adaptação à separação ou divórcio parental21-25. Crianças com temperamento fácil, inteligentes, responsáveis e socialmente sensíveis evidenciam mais competência de adaptação positiva a essa transição familiar24. Dimensões como a autoestima, a competência cognitiva e a autonomia da criança, associadas ao sistema de suporte social, também estão positivamente ligadas a uma maior adaptação da criança18.

Quando se procura compreender o impacto que o divórcio pode ter na criança, é ainda essencial considerar as diferenças desenvolvimentais decorrentes da idade. O divórcio não implica forçosamente maior impacto numa dada idade, mas sim efeitos diferentes consoante o estágio desenvolvimental da criança. No entanto, quando se isola o nível desenvolvimental de outras variáveis moderadoras, observa-se que quanto mais elevado e integrado o nível de desenvolvimento da criança, melhores os índices de adaptação à separação dos pais6.

Alguns estudos concluíram que crianças em idade pré-escolar apresentam maior risco ecológico e desenvolvimental para trajetórias sociais e emocionais desadaptadas, em comparação com crianças de mais idade18. Algumas tarefas desenvolvimentais podem ficar comprometidas pela incapacidade da criança, relacionada com a idade, de compreender as mudanças e o significado do conflito e do divórcio parental26. A imaturidade das suas estruturas cognitivo-emocionais faz com que sejam menos capazes de avaliar realisticamente as causas, os processos e as consequências da separação e centralizem em si a responsabilidade pela ruptura entre os pais, ao que se alia uma menor competência para conseguir o suporte necessário à diminuição do seu nível de aflição.

Problemas financeiros

Um dos principais fatores de risco, relacionado com o pior ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais, é a diminuição da segurança financeira. As dificuldades econômicas que surgem após a dissolução marital27,28 parecem ter impacto significativo na redução dos níveis de bem-estar e sucesso acadêmico da criança29,30. As mudanças financeiras têm impacto direto, mas também indireto, sobre a criança.

Um impacto direto porque menos recursos econômicos podem significar para a criança menor qualidade de vida (p. ex.: viver em bairros com problemas), mudar de escola e ter menos oportunidades educacionais, interferindo na sua realização acadêmica30,31. Tendencialmente, os pais que ficam com a guarda sentem um acentuado declínio nos recursos econômicos disponíveis para responder às necessidades da família. A redução do rendimento familiar tem impacto no bem-estar real e subjetivo da criança, traduzido no decréscimo de recursos financeiros disponíveis para a saúde, educação, atividades extracurriculares, acesso a bens culturais e de entretenimento e aquisição de produtos utilizados diariamente5,28,32. Os pais mais desprotegidos do ponto de vista econômico podem estar impossibilitados de proporcionar as condições de vida necessárias aos filhos. Caso as dificuldades financeiras sejam crônicas, podem, ainda, não permitir o acesso a atividades essenciais ao desenvolvimento cognitivo e social da criança. Já quanto ao impacto indireto, as dificuldades econômicas afetam muitas vezes o ajustamento pós-divórcio da mãe, influenciando o seu estado de humor, funcionamento e capacidade para providenciar cuidados apropriados à criança2,33. Outros estudos defendem que as dificuldades financeiras amplificam as consequências negativas da separação ou divórcio dos pais. Hetherington et al.21, por exemplo, referem que a dificuldade econômica em acréscimo ao estresse do divórcio é a maior causa para as dificuldades da criança.

Sintomatologia psicopatológica dos pais

As alterações na estrutura familiar expõem a criança a um contexto de interação em que predominam estressores psicossociais, que podem dificultar a sua competência para se ajustar ao divórcio dos pais.
O modo como os pais lidam com o divórcio, principalmente os seus níveis de sintomatologia psicopatológica, tem sido relacionado com os níveis de ajustamento da criança10,34.

A epidemiologia dos transtornos mentais, que vem se ocupando de forma crescente, nos últimos 25 anos, dos chamados eventos de vida produtores de estresse, considera o divórcio um rito de passagem em que as mudanças implicadas são produtoras de estresse35. Esse estresse, por sua vez, aumenta a probabilidade de desadaptação psicossocial parental e vulnerabilidade psicopatológica16.

Du Rocher Schudlich e Cummings34 indicam que o bem-estar parental está associado ao ajustamento ao divórcio, por meio de processos familiares mediadores específicos e distintos, como o conflito parental e a parentalidade. Além disso, a segurança emocional da criança, no contexto de diferentes estilos de conflito marital, é mediada pela relação entre o mal-estar parental e os problemas de ajustamento da criança. Se o conflito marital e o divórcio aumentam os níveis de ansiedade, depressão e estresse parental, diminuem consequentemente a efetividade dos pais e podem, por sua vez, afetar negativamente o ajustamento da criança. Por exemplo, a existência de depressão parental aumenta a probabilidade de diminuição da qualidade de prestação de cuidados instrumentais e emocionais32. As mães com sintomatologia depressiva exibem mais afeto negativo, mais comportamentos negligentes, mais comportamentos hostis, menor consistência educativa, menos comportamentos parentais positivos, menores cuidados com a saúde da criança, menor disponibilidade emocional e mais comportamentos parentais de risco36. Como resultado, as crianças de pais separados deprimidos ou ansiosos apresentam maior probabilidade de desenvolver perturbações de depressão e ansiedade, mais comportamentos oposicionais, menor autoestima, pior comportamento social, pior rendimento acadêmico, maiores défices de atenção e maiores dificuldades de relacionamento interpessoal37.

Também Lansford10 considera o rendimento econômico, o conflito interparental, as práticas parentais e o bem-estar dos pais como mediadores da relação divórcio e ajustamento da criança. Esses quatro fatores podem amortecer a associação existente entre divórcio parental e dificuldades de ajustamento da criança. Um processo de divórcio harmonioso entre os pais, tendo em vista o interesse superior da criança, reduz as dificuldades de ajustamento dos filhos. O bem-estar dos pais é aqui referido como um possível mediador no ajustamento da criança ao divórcio. Dessa forma, compreende-se que os fatores protetores do ajustamento da criança ao divórcio e redutores do risco estejam relacionados com dimensões do ajustamento parental.

Práticas parentais

Alguns estudos têm demonstrado que as práticas parentais são particularmente críticas e suscetíveis de explicar os efeitos da separação ou divórcio dos pais na criança38. Para Amato14, a qualidade da parentalidade é um dos melhores preditores do bem-estar social e emocional da criança. No período inicial da dissolução conjugal, os pais estão mais centrados no seu ajustamento às mudanças familiares39, por isso tanto a consistência e a concordância nos cuidados quanto a partilha de um estilo parental democrático podem estar dificultadas. Um estilo parental democrático partilhado por ambos elementos da díade (por exemplo, quando as mães facilitam e incentivam a guarda partilhada com o ex-cônjuge) facilita o bom ajustamento da criança40. Caso contrário, quando os pais divergem no estilo parental, confrontando a criança com mensagens educativas inconsistentes, o estresse e os problemas de internalização aumentam.

A coparentalidade cooperativa, definida pelo envolvimento conjunto e recíproco de ambos os pais na educação, cuidados e decisões sobre a vida dos filhos41, é igualmente decisiva no ajustamento da criança ao divórcio. Os pais que exercem uma relação de coparentalidade cooperativa, ao imprimirem prioridade ao bem-estar dos filhos, mantêm uma relação construtiva, com novas fronteiras, novos papéis parentais flexíveis e maleáveis entre si, com vista a resposta às necessidades da criança. Nesse sentido, os pais partilham a responsabilidade pela educação dos filhos e cooperam na tomada de decisão.

Existem três variações da coparentalidade42, sendo a coparentalidade cooperativa, em vez da coparentalidade conflituosa ou descomprometida, a que melhor propicia o ajustamento da criança. Maior cooperação, respeito e comunicação na díade parental quanto às necessidades dos filhos, maior envolvimento do pai sem a guarda parental (caracterizado por uma forte ligação emocional consistente) e estilo parental democrático influenciam e promovem o bem-estar da criança, em dimensões como o rendimento escolar e o estado de saúde43.

Contudo, na sequência da separação ou divórcio parental, o risco de relações coparentais descomprometidas é elevado4,42,43. As relações descomprometidas caracterizam-se por distância física entre os pais, dificuldades em isolar a relação conjugal da atual relação coparental e diminuição do envolvimento na vida da criança do pai não detentor da guarda44. Por sua vez, quando os pais apresentam um padrão coparental disruptivo, as relações são paralelas e pouco consistentes, existem altos índices de conflituosidade que, consequentemente, minam a percepção da criança sobre a aliança parental.

Conflito interparental

O conflito interparental é considerado o fator de risco com maior impacto no ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais45,10. O conflito interparental – manifestado pela raiva, hostilidade, desconfiança, linguagem agressiva, agressão física, dificuldades de cooperação nos cuidados e comunicação com os filhos etc.44 – cria um ambiente familiar estressante, suscitando reações de estresse, tristeza e insegurança na criança46. Esse ambiente não é propício ao desenvolvimento adequado da criança e tem um impacto negativo no seu ajustamento psicológico47.

A desarmonia conjugal é também um fator de risco psicossocial encontrado com maior frequência entre as famílias com pais alcoó­licos, existindo uma elevada taxa de divórcios e separações48. Esse fato aponta para que as crianças expostas ao divórcio/separação dos pais, em que predominam os conflitos interparentais, estão mais suscetíveis de viver em ambientes familiares desestruturantes e estressantes coexistentes com alcoolismo parental.

Relações parentais conflituosas, quando acontece o emaranhamento dos problemas conjugais na relação parental, têm não só efeitos diretos no funcionamento psicológico da criança, mas também efeitos indiretos, dado que interfere na qualidade do comportamento parental. O conflito interparental coloca os pais numa posição menos efetiva para lidar com os filhos10. Além do que, quando as crianças são envolvidas nos conflitos parentais, acontece a deterioração das relações pais-filhos49. Práticas e rotinas contaminadas pelo elevado conflito entre os pais traduzem-se, na maioria das vezes, em disciplina permissiva e inconsistente, volatilidade emocional, elevados índices de hostilidade e impulsividade educativa e menor responsabilidade e disponibilidade emocional.

Compreende-se desse modo 1) porque as crianças de famílias intactas, em que existem elevados níveis de conflitos, tendem a mostrar problemas similares aos das crianças de pais divorciados e 2) porque os conflitos parentais pós-divórcio estão associados a baixos níveis de bem-estar nas crianças5,6. Com efeito, as crianças cujos pais estão envolvidos durante longos períodos de tempo em disputas judiciais sobre a regulação do poder parental apresentam pior ajustamento ao divórcio50,51. No estudo de Bing et al.51, as famílias que experienciam níveis mais elevados de conflito, medidos pelos níveis de envolvimento judicial, mostram menor resolução positiva do divórcio e as crianças, menos competências de coping.

A investigação ilustra que a percepção da criança acerca do grau de conflito interparental funciona como um mediador na presença/ausência de sintomas psicopatológicos: quanto maior a percepção da destrutibilidade dos conflitos entre os pais, maior o risco para problemas de ajustamento na criança12. Crianças envolvidas em separações altamente conflituosas apresentam mais problemas de externalização, quando comparadas com crianças que experienciam separações parentais com baixos níveis de conflito45. Segundo Emery52, processos familiares, como a parentalidade inadequada, conflito interparental e desestruturação da estrutura familiar, explicam muitos dos comportamentos de externalização encontrados entre as crianças dos pais divorciados.

Principais conclusões

O presente artigo pretendeu enunciar e refletir sobre o impacto e os fatores associados ao impacto da separação/divórcio dos pais no ajustamento da criança. Da análise da literatura, surgem algumas conclusões relevantes. A primeira é que o divórcio dos pais se associa a problemas transitórios de ajustamento nas crianças, as quais diminuem os resultados desenvolvimentais23 e estão duas vezes mais em risco de desenvolver problemas do que a população não divorciada44 nos dois primeiros anos após a dissolução conjugal. A maioria dos estudos revisitados aponta que a magnitude e a duração dos problemas que a criança pode exibir decorrem não diretamente da mudança na estrutura familiar, mas dos conflitos que a acompanha53, assim como do modo como os pais se ajustam ao divórcio, nomeadamente da presença de sintomatologia psicopatológica, o que largamente interfere na sua competência parental.

A segunda conclusão relaciona-se com a impossibilidade empírica de associar o divórcio a uma maior probabilidade de a criança apresentar problemas de ajustamento a médio ou longo prazo. Como já sublinhamos, essa associação não parece ser simples16 e tende a surgir por meio da inclusão de variáveis mediadoras e moderadoras na equação, que emprestam poder às conclusões da maioria dos estudos. Aparentemente, a configuração estrutural da família não é responsável direta pela qualidade do ajustamento da criança. Manutenção do bem-estar financeiro da família, ajustamento psicológico dos pais, coparentalidade positiva e resolução de conflitos interparentais são as dimensões primordiais.

Ao longo das últimas décadas, a investigação prevalente é rica em enunciar e descrever o quão disruptivo pode ser o divórcio dos pais para o desenvolvimento da criança, colocando em segundo plano o reverso desse processo, isto é, o potencial de enriquecimento que essa transição familiar pode comportar. Assumir a possibilidade de crescimento não significa a negação do risco acrescido a que crianças de pais divorciados estão expostas. Sustentando-se nos perfis de adaptação e desenvolvimento obtidos por meio dos dados recolhidos em estudos longitudinais, que avaliaram comparativamente as trajetórias desenvolvimentais de crianças e adolescentes oriundas de famílias intactas (com e sem conflito), famílias com pais divorciados e famílias reconstituídas, Hetherington e Kelly constataram que as crianças de pais divorciados situavam-se com frequência nos clusters de crianças com piores ou melhores resultados desenvolvimentais23. A esses dados somam-se outros estudos que concluíram que a linearidade divórcio igual a problemas de adaptação é falaciosa e não reflete com exatidão os resultados da investigação empírica18,54. Baseados nessas conclusões empíricas, levantamos a hipótese de que os problemas de ajustamento apresentados por parte das crianças com pais divorciados possam ser mais bem explicados por outros fatores do que pelo divórcio per se. O presente artigo teve como finalidade apresentar e descrever esses principais fatores com relevância na compreensão dos padrões de ajustamento da criança a essa transição familiar.

Argumentamos ainda que, apesar de esses fatores apresentarem maior saliência nas famílias de pais separados/divorciados, são transversais a qualquer configuração familiar. Por outras palavras, a conjugação sequencial desses fatores prediz os níveis de adaptação da criança, independentemente da estrutura e arranjo familiares55,56. Com este artigo pretendeu-se sublinhar que o divórcio não se apresenta tão nefasto para a maioria das crianças que o experienciam. Por isso, é necessário, como agenda futura, iniciar uma mudança epistemológica e centrar parte dos recursos científicos nos produtos positivos do divórcio. É hoje visível o surgimento de estudos e posições teóricas que assentam nessa proposição conceptual. Perspectivando o divórcio como uma transição desenvolvimental, tal transição deve ser lida e analisada à luz dos processos de mudança desenvolvimentais. Isso obriga à utilização dos mapas conceptuais e metodológicos da ciência desenvolvimental. Dessa forma, o estudo do impacto do divórcio, em primeiro lugar, deve assumir este estressor como um processo sistêmico e dinâmico, sublinhando as funções da plasticidade no estudo do desenvolvimento humano, e, em segundo lugar, definir a adaptação como resultado da interação de múltiplos mediadores psicossociais, condicionada por características individuais e pelo contexto desenvolvimental, o que invalida certezas a priori das trajetórias desenvolvimentais pós-divórcio.

São cada vez mais visíveis as inovações conceptuais e empíricas que alicerçam a possibilidade de identificar e decalcar diferentes trajetos desenvolvimentais após a dissolução conjugal dos pais, e esse evento não é, por um lado, obrigatoriamente sinônimo de desajustamento crônico e, por outro lado, poderá ser um momento de promoção desenvolvimental. Dessa forma, a resiliência deve igualmente ser pensada, uma vez que, efetivamente, a grande maioria das crianças que vivenciam o divórcio dos pais apresenta um bom ajustamento e não demonstra vários ou permanentes problemas emocionais ou comportamentais6,18.

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Órgão Oficial do Departamento e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade de São Paulo